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Bolor e Alzheimer.

De tempos em tempos somos sacudidos por revelações perturbadoras da pesquisa biomédica.

A mais nova, e chocante, apareceu no último dia 15: o mal de Alzheimer parece ter uma relação forte com infecções por fungos.

O estudo, de um time espanhol liderado por Luís Carrasco, da Universidade Autônoma de Madri, saiu no periódico “Reportagens científicas” .

Carrasco e Cia. examinaram amostras de cérebros de uma dezena de pessoas que morreram com a doença e outro tanto de indivíduos não afetados (grupo de controle).

Só encontraram sinais de fungos no primeiro lote.

Filamentos chamados de hifas, aquelas fibras diáfanas que brotam em cantos escuros e úmidos, foram encontrados entre as células neurais dos que sofreram com

Alzheimer.

É difícil imaginar figura geriatricamente mais incorreta: bolor, mofo, no cérebro de idosos dementes.

Alzheimer é uma moléstia cruel, sabem todos que têm alguém querido atacado por ela.

Caracterizada pela formação de placas da proteína beta-amilóide no cérebro, a doença está por trás da maioria dos casos de demência, que pode afetar 7% dos brasileiros com mais de 65 anos.

Não se conhece bem sua origem, e não há terapia eficaz.

O trabalho de Carrasco abre uma avenida de possibilidades de pesquisa em busca de tratamentos, mas é certo que muitos anos ainda seriam necessários para chegar a novos tratamentos – ou não, levando a novos becos sem saída.

Há muito se especula que micróbios, como os fungos, podem estar por trás desse mal.

O grupo espanhol testou as amostras primeiro, com anticorpos que reagem a proteínas fúngicas.

Depois, comprovou a presença de DNA específico desses micro-organismos nos filamentos isolados do cérebro.

Duas dezenas de pacientes é muito pouco para provar qualquer coisa em medicina. Mas salta aos olhos os números obtidos pela equipe madrilena: 100% de infeção nos afetados e 100% de ausência no grupo de controle.

Isso não constitui evidência, contudo, de que leveduras e similares sejam a causa do Alzheimer. Não se exclui a hipótese de que a doença, caso tenha outra origem, predisponha os idosos para sucumbirem às infecções por fungos.

Os autores do artigo dizem nele que só a realização de estudos clínicos detalhados permitirá estabelecer se fungos causam sozinhos a enfermidade.

Eles indicam, em favor de sua hipótese, que não há contradição flagrante com os sintomas ou a progressão do Alzheimer. Trata-se de doença com desenvolvimento lento, que vem acompanhada de inflamações-ambas as manifestações compatíveis com infecções crônicas por fungos.

Não é a primeira vez que se descobrem os elos entre infecções (e inflamações decorrentes delas) e moléstias graves, de alto custo individual e social.

Foi assim com as úlceras e tumores de estômago, que hoje podem ser prevenidos com antibióticos contra a bactéria H. pylori.

Vacinas para meninas combatem o HPV (papiloma vírus) causador de câncer no colo do útero, antes um flagelo feminino.

Até a obesidade tem laços estreitos com a flora intestinal e, pasme, parece ser transmissível.

A boa notícia é que existem poderosos medicamentos antifúngicos.

Se Carrasco estiver certo, o que está longe de ser comprovado, uma fresta de esperança se abre para os velhos cujas biografias se reduzem a cacos.

Seu sofrimento e a angústia de familiares criam também uma enorme oportunidade para os charlatães, salvadores da pátria (bem ou mal intencionados) e crédulos em conspirações.

Não seria de espantar se amanhã surgissem propagandistas de panaceias não testadas contra o bolor no cérebro “(Marcelo Leite – Folha de São Paulo)


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